Coleção Particular

Este projeto-processo foi iniciado em 2008 com um primeiro ursinho feito de cimento, sem muita expectativa, apesar de me deixar atento para uma provável ação continuada, observando a reação dos espectadores-colecionadores que desejassem adquirir um exemplar. Interesso-me muito por uma certa despretensão em relação a arte...

Não havia pensado ainda no termo COLEÇÃO, porém isto é próprio da ação que o envolve. Sem este conceito não se completaria o trabalho. Individualmente o ursinho funcionaria talvez, apenas como um objeto construído (e despretensioso), não contendo uma poética que possa estabelecer-se nesse atrito, variando de peso-matéria-cor, sendo executado em cimento ou utilizando um material chamado massa pula_pula de leve densidade e inversamente proporcional ao cimento.

Já ao fazer as intervenções na praia, desloquei um fazer artesanal para instaurar uma ação in situ, num lugar específico; efemeridade induzida. Aquilo que era particular enquanto objeto, agora se torna universal fazendo parte de uma natureza e ampliando o número de espectadores, mas transformando sua existência num tempo mais exíguo. Ao instalar e formatar perto do mar corrigi uma impermanência que me interessava. As imagens neste caso trataram de salvar a espécie; construíram um olhar congelando a natureza viva; onda que não quebra mais, porém o vídeo se encarrega de manter os vestígios; uma extinção rápida, ficando apenas as imagens que dão continuidade a esta rede de articulações.

Na praia ocorreram algumas transformações conceituais; uma constituição feita a partir da modelagem na areia, havendo uma necessidade de ampliar o número de ursinhos. A ação se deu como uma performance, resultado que acabou parecendo como se fossem seres náufragos ocupando a praia do Cassino e  se tornando índices de sua própria existência.

Em Florianópolis foi outra situação, outro tempo por definição.  Foram menos ursinhos modelados. O encontro da faixa de areia com uma concentração de conchas muito diminutas sugeriu o experimento de uma nova possibilidade de construção para as imagens; considerei este achado como uma pérola preciosa, matéria calcária...

Tem sido uma proposta oferecida ao espectador onde no início não havia como prever a capacidade que este processo poderia gerar enquanto dimensão estética. Alguns desses ursinhos pertencem hoje a colecionadores e mesmo que esses não possuam um acervo de arte, resolvi chamar este conjunto de coleção particular.

Nas pinturas com spray em radiografias de crânios humanos, utilizo a mesma forma de plástico da modelagem. O ursinho em papel alumínio que antes servia apenas como embalagem, agora é legitimado enquanto processo. Deixei aberta a possibilidade para outras pessoas interagirem, como algumas imagens que estão aqui disponibilizadas.

Procedimentos são atos que podem tornarem-se potências.... Não busco regular ou determinar por antecipação o que ocorrerá como um fim, importando mais obter uma noção espontânea dos estados presentes  e  configurando um devir que  busco como artista...................in process.

Alexandre Antunes