| Ação número vinte e dois . 803 e 804 / terreno.baldio | ||
| .... | Há tempos venho imaginando situações para os meus vídeos, em espaços fora do circuito institucional, como um supermercado, uma videolocadora, um bar, o café que costumo freqüentar (onde duas televisões ficam permanentemente ligadas sem som), vitrine de lojas, nas TVs que têm nos bancos (principalmente no Banco do Brasil onde uma clientela fica observando imagens em uma fila que se arrasta). Ou, ainda, em um espaço de propaganda - um outdoor totalmente branco - e projetar durante uma, duas, três noites, uma série de vídeos. Então, anoto todos esses lugares potencialmente propícios para breves atravessamentos do meu trabalho. Alguns deles já foram acionados e as ações programadas têm sido realizadas; outras estão à espera do momento certo, não posso determinar, elas surgem. E surgem de diferentes modos. Gosto, por exemplo, da idéia de colocar na bolsa uma fita de vídeo, uma máquina fotográfica, entrar numa videolocadora e dizer que sou artista e que gostaria de expor ali por algumas horas um trabalho. Tem dado resultado, a ação número cinco foi uma dessas. E o interessante foi que conjugou videolocadora + supermercado. Acoplada a ele, uma das TVs era direcionada para o interior do supermercado capturando aqueles que aguardam na fila do caixa. A primeira dessas ações planejadas foi realizada no Cine Clube Nossa Senhora do Desterro. Gilberto Gerlac que comanda essa sala de cinema, que corresponde uma das boas coisas que temos aqui na ilha, deu carta branca e total apoio. Antônio e eu saímos à cata de um projetor. Tivemos, além disso, uma super ajuda do nosso amigo e engenheiro de plantão Manoel Alvar, que calculou na medida certa, suporte e distância para preencher toda a tela do cinema. Fomos lá: dezembro de 2002, Fale Com Ela de Almodovar. Seu Jurandir, operador do projetor do cinema numa ponta, Antônio com o controle remoto na outra e a sorte do nosso lado. Nada planejado: na véspera, um problema no projetor fez com que a ponta da película se enrolasse e, claro, seu Jurandir tacou a tesoura. O resultado foi bárbaro: luz apagada, 45 segundos de um fragmento de um vídeo p x b, sem som, da série Anatomia da Felicidade: Lucy baixando a cabeça, tira as mãos do rosto e as deixa cair suavemente. Créditos. Fade. Seu Jurandir roda imediatamente Fale Com Ela: Pina Bausch surge, então, esplendorosa em Café Müeller. Durante cinco dias seguidos realizamos essa ação que nomeei de ação número um. Cada dia com um fragmento diferente. Dessas ações que passaram
pelo cinema, videolocadoras, folheto impresso de produtos em promoção
no supermercado, projeção em parede de edifício,
até chegar no Dias Velho - ação número vinte
e dois - foi quase um ano. Tinha proposto apresentar uma série
de trabalhos quando fui selecionada no Edital de Apoio à Criação
e Exposição pela Fundação Catarinense de
Cultura, em 2001 e, na época rondavam duas idéias: uma
era realizar uma exposição-catálogo, uma espécie
de revista, outra era justamente essa: uma série de ações
pela cidade, entre elas, alugar por uns dez dias ou um mês, um
pequeno apartamento ou uma sala comercial em pleno centro, em um edifício
multifuncional, transformando em espaço de exposição.
Quase desistindo, já deixando em suspenso a idéia para
um momento propício, quando Jacqueline Wilde Lins, companheira
de pelo menos dez anos na universidade, em uma conversa daquelas no
meio da tarde, pleno café, intervalo de alguma coisa, fala que
tem uma sala conjugada: 803 e 804, oitavo andar do edifício Dias
Velho, pleno centro da cidade. Em tempo: Colado às salas conjugadas do Dias Velho, desenvolvemos o site que re-expõe os acontecimentos do 803e804 constituindo assim um atravessamento entre instâncias diferentes da mesma coisa. www.terreno.baldio.nom.br regina
melim . outubro de 2003 |
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