Bala de Lágrima:notas sobre uma proposta de poesia gustativa

Luana Marchiori Veiga
luanaveiga@yahoo.com.br

Bala de Lágrima

Sou recém chegada à cidade de Florianópolis para a realização de meu Mestrado, e ainda mal estabeleci relações de amizade. Fiquei sabendo que ocorreria um evento de performance e me ofereci para participar com um trabalho, uma vez que é minha linguagem mais utilizada.


Estive em várias cidades do Brasil nos últimos tempos, residindo e trabalhando, e tenho refletido sobre a postura do artista estrangeiro, quando chega num lugar novo. Ele não deveria adotar uma postura colonizadora ou arrogante, trazendo trabalhos prontos como verdades estabelecidas, ou coletando material pitoresco do lugar onde ele chega, atitudes tradicionais de artista em lugar novo, possivelmente herdada das modalidades acadêmicas que acompanhavam as missões de exploração no Novo Mundo. O artista é o estrangeiro ao lugar, ele é o pitoresco dentro da normalidade do lugar onde ele chega e desequilibra. Como habitante do Novo Mundo e ao mesmo tempo descendente dos colonizadores, proponho uma mudança de atitude, e nesse caso o artista deveria procurar desenvolver sua poética no espaço e tempo em que se inseriu, oferecendo-se ao convívio e à descoberta do outro. Dentro desse raciocínio, e sendo o tal evento minha primeira ação poética na cidade, pensei numa ação discreta, não-espetacular, e que proporcionasse um contato direto e individual com cada visitante do evento, e que tal contato tivesse uma potência além da contemplação plástica e da racionalidade conceitual. A escolha da performance como linguagem poética é justamente pela possibilidade de uma ação que provoque um fenômeno completo que ative a percepção e os sentidos do visitante, numa interação de grau máximo.


O projeto da Bala de Lágrima previa a delicada oferta de uma bala, que seria colocada diretamente na boca de cada pessoa. A partir de um contato primeiramente visual, olhos nos olhos, uma oferta verbal e gestual, seguia a colocação da bala na língua da pessoa, e de um leve toque no braço. Um sabor inesperado preencheria então as papilas gustativas. Uma suave mistura de doce e salgado. Gosto de lágrima.


O sabor misturado de doce e salgado, refletia também meu estado de espírito melancólico, de quem está ainda em fase de adaptação e sofre com saudades. A bala oferecida a cada um, como num cumprimento, uma saudação, permitiria o estabelecimento de uma relação um-para-um, onde eu me ofereço simbolicamente à degustação do outro.


É relevante lembrar, aqui, da associação que existe em nossa cultura entre hospitalidade - arte de receber bem - e refeição, a arte do bem oferecer. Numa sociedade hierárquica como a brasileira, a sociabilidade fraterna e popular também é vivenciada através dos usos da comida. Quem não se lembra de oferecer um cafezinho às visitas de casa?


As grandes festas e comemorações sempre envolvem a oferta de comidas, e o caráter dos anfitriões será avaliado a partir da generosidade e qualidade das guloseimas.


A bala, com sua forma e aparência inofensivas, não ofereceria ameaça para o olhar, e seria recebida sem hesitação, mas seu sabor inusitado ativaria a produção de saliva do degustador. Ele verteria água por dentro. Assemelharia-se à função do próprio choro.


Ao chupar a Bala de Lágrima cada degustador receberia a possibilidade de compartilhar uma sensação num nível não simbólico, não visual. Esse ato em si já é fundador de cultura.


Talvez eu não consiga escapar do fardo de ser impositiva, colonizadora até, já que a sedução do alimento “bala” e a curiosidade do visitante atraem o degustador como numa arapuca de sentidos. Conquistado, ele verte suas lágrimas salivares, e juntos compartilhamos a construção de uma nova cultura, nova sabedoria.

“Sábio (sapiens) vem de sabor (sapor), pois, assim como o paladar é apto para discernir os sabores dos alimentos, assim também o sábio distingue as coisas e as causas, pois conhece cada uma e sabe discernir o sentido da verdade. Por isso, o contrário do sábio é o insipiente (insipiens), aquele que não tem paladar nem sensibilidade.“
Jean Lauand