O limiar das sensações


A força do trabalho plástico-visual de Jaqueline Carvalho, apresentado na mostra Suspiro, no MAC/ RS, não se concentra no uso de um único método ou recurso visual. Pode estar na alteração de escala de um objeto de uso cotidiano. Pode estar na ação de desmembrar partes de coisas já existentes, e de associá-las arbitrariamente, provocando o surgimento de objetos híbridos, com funções ambíguas. Pode estar na estratégia de esconder a totalidade do corpo e dele revelar só fragmentos, fazendo uma alusão às experiências sensoriais tão caras à arte brasileira mais recente.

Mas também pode estar na forma verdadeiramente obscena de mostrar a voracidade humana em plena ação, através de uma seqüência de registros fotográficos em que diversas pessoas são flagradas no momento exato da penetração dos alimentos nas bocas. Um instante a mais ou a menos na cristalização dos movimentos pelo clicar da câmera, poderia ter dissipado a terrível tensão destas imagens.

Associando forte ousadia a um grande refinamento técnico, Jaqueline Carvalho usa elementos de sua própria memória cultural (rural e urbana), sem lançar mão dos clichês do mundo contemporâneo, que em grande parte se move em busca da satisfaçno dos desejos imediatos. Seus trabalhos discutem os temas mais complexos da sexualidade humana, que já geraram espessos tratados teóricos. Invocam o limiar das sensações (em que instante o prazer se transforma em dor, e vice-versa?). Acionam a memória visual, e através dela, a memória física (o instrumento de marcar gado pode se transformar num objeto fálico?). Incitam a realização dos desejos reprimidos (aquela sedutora almofada vermelha é um convite para os olhos ou para o corpo?).

Em seu conjunto, estas proposições nada têm de ingênuas ou casuais. Tratam de assuntos adultos, que resultaram de um longo processo de maturação, acompanhado pela orientação segura de artistas mais experientes. Sem dúvida, o público interessado em arte contemporânea, que visitar a mostra, encontrará razões suficientes para acompanhar o desenvolvimento da carreira desta jovem, recém-saída de sua formação universitária, que tão precocemente conseguiu desenvolver uma linguagem artística própria.

Neiva Bohns