...Comecemos
pelas fotografias e alguns dos temas em principio banais que
Daniel Acosta
vem explorando através delas, vacas no pasto,
a paisagem com uma árvore caída, um cogumelo (ou será uma
bola de golfe?). Observando-as logo notamos que o que interessa ao
artista é menos as imagens que elas apresentam; menos as vacas,
a árvore, o cogumelo (mas será mesmo um cogumelo?), mas
como essas imagens, na medida em que fogem daquilo a que estamos acostumados,
obliteram nossa compreensão; demonstram que a despeito da confiança
que depositamos nela, a visão é uma fonte inesgotável
de equívocos. Imagens, lembra-nos essas fotografias, são
quase tão abstratas quanto as palavras, são construções
tão caprichosas que basta que se lhe desloque o ponto de vista,
altere sua sintaxe, substitua-se ou apague-se um dos elementos que
a compõem para que adquiram um significado inteiramente imprevisto
ou ao menos fiquem impregnadas de estranheza. Se cada signo possui
uma forma, um corpo, nessa exposição, passando do mais
abstrato ao mais concreto, das paisagens às arquiteturas, a
proposta de Daniel Acosta é desmonta-los para em seguida
rearticula-los, cuidando sempre em deixar os nexos nus, como fraturas
expostas.
...O resultado é que não há como ficar imune aos
efeitos desses jogos sintáticos: diante da fotografia de uma árvore
caída no campo, que o artista força a ficar vertical
girando o corpo da máquina, fazendo do horizonte uma diagonal íngreme,
o espectador entorta seu corpo na vã tentativa de readquirir
a domesticidade tranqüila da linha do horizonte.
...O ponto nodal da poética de Daniel Acosta reside em problematizar
o modo complacente como nos relacionamos com as representações,
o que faz de cada um de seus trabalhos – fotografia, desenho,
escultura, instalação - uma crítica a memória
dessas relações que impregnam nossos músculos
e mentes, orienta gestos, limita o espectro da percepção,
não deixam perceber que as coisas não se desenredam nas
suas aparências, não se esgotam naquilo que se vê de
imediato, não são meros fenômenos de superfície.
...Em
Acosta a crítica à percepção ou, dito
de outro modo, o reconhecimento dos cinco sentidos como um produto
simultâneo da cultura e da natureza, acontece pela via da demonstração
sistemática de que, ao contrário da noção
corrente que os resolve como termos irredutíveis, esses dois
pólos estão paulatinamente mais e mais indistintos. De
fato se tudo que há provem da natureza, é natureza modificada,
o que dizer daquilo que, sendo artificial, esmera-se por parecer natural?
O artista é fascinado por flores de plásticos – flores
falsas? não! verdadeiras de plástico -, placas de fórmica
simulando veios de madeira, como também é fascinado por
um mundo tão repleto de cifras, objetos tão codificados
que basta que os desloquemos para um outro lugar para que eles mostrem
sua face insubordinada, como é o caso da maca, objeto tão
prosaico mas que, afixado numa das parede do museu, submerge entre
as coisas inclassificáveis.
...E o que dizer das construções proto-arquitetônicas – quiosques,
cabines, banheiros portáteis, caixas rápidos etc –,
o formidável elenco de objetos indecisos entre escultura e arquitetura
que invadem paisagens, cidades e até mesmo edifícios?
São eles que estão na origem desses híbridos fabricados
pelo artista e que ele instala dentro de prédios, no interior
de museus e galerias, num processo de ocupação equivalente à dinâmica
da vida urbana contemporânea, pautada na alta densidade de pessoas
e construções, na coexistência entre termos contrários – arquitetura
e paisagem - ou mesmo semelhantes – arquitetura
dentro de arquitetura.
...A cidade é o lugar fértil de onde proliferam formas que
escorrem pelo campo afora. Sob sua lógica a matéria natural
se metamorfoseia em matéria artificial que, por sua vez, se
espelha no natural, enquanto a coisa se metamorfoseia em signo e o
signo em coisa. Com suas materialidades ostensivamente artificiais,
a base de plástico, fórmica, cores e luzes industriais,
com seus vasos transbordantes de folhagens verdes iridiscentes, com
seu laguinho/piscininha de bordas sinuosas feito de fórmica
azul em tudo semelhante aos desenhos de lagos e piscinas em plantas
baixas de arquitetura, Daniel Acosta fabrica suas “paisagens
portáteis”. A ironia desprendida por esse título
resulta da constatação de que muito embora as construções
que o artista parodia serem produzidas por tecnologias sofisticadas,
não deixa de ser curioso que elas, ao invés de afirmarem
sua artificialidade, terminam por simular a natureza – o ponto
de partida delas, como de tudo o que existe -, à maneira da
folha de fórmica que simula em desenhos invariáveis os
veios da madeira, sua origem negada pelo processamento industrial,
ou como o falso e exaltado aroma de pinheiro ou eucalipto, a promessa
possível de uma vida “in natura”, que se desprende
do líquido denso e amarelo esverdeado do desinfetante com que
alimentamos a ilusão de purificar nossos aconchegantes
lares burgueses.
...