Para redescobrir o corpo

 


Diante dos desenhos de Damé tem-se a sensação de familiaridade com os objetos projetados, mas logo em seguida a de um estranhamento sutil é inevitável. Há uma configuração alusiva a coisas que convida ao toque, ao uso, com uma identificação rápida, mas como a de um conhecido que vemos de longe e, a medida que nos aproximamos, vamos desmanchando a imagem montada por nos certificarmos que as características embora mesmo suas estavam imersas num outro corpo. É como se tivéssemos uma porta de acesso pela similaridade e apesar dela tivéssemos que refazer o encontro para tentarmos descobrir como fomos traídos por nós mesmos.

O que nos aproxima é também o que nos rejeita. Por isso nos incita. Aquilo a que alude é também o que ilude por isso a fruição não se resolve assim tão fácil. Perverso, o objeto vive de se apresentar como se fosse outro sendo o que é. Nos torna estrangeiros. E, estrangeiro é o olhar atento do artista que percorre o cotidiano mas não se deixa trair pelo hábito do uso e das funções que imantam as coisas, que as tornam acessíveis e localizáveis em lugares próprios do fluxo do dia-a-dia.
Mas, olhar para as coisas e vê-las como se fosse da primeira vez também não é tudo aqui. A invenção recria os objetos porque, sem a função que lhes deu sentido no contexto de origem, passam a ser habitados por um enigma. A ação do artista revela o domínio do métier dos que aprenderam com o tempo e foi aperfeiçoado pela sabedoria que só a repetição pode estabelecer como diferença.

Aquele olhar atento faz o deslocamento de qualidades de objetos do cotidiano mas também as refaz para, neste intervalo, agregar algo de corpóreo, anatômico e sensual ao novo objeto. As formas fechadas se afastam da tradição construtivista, moderna, mas se instalam na contempo-raneidade quando a hibridação resulta da atenção que transita por situações de territórios diversos. A participação de cada material só é convincente quando temos a peça montada. Quando separadas, as partes revelam autonomia reforçada pela adequação entre forma e material que só um olhar experimentado ousaria reunir. Isto feito, funcionam como que por encaixe e as medidas são naturalmente refeitas.

A alusão a outras peças suscitada pelo caráter orgânico da maioria dos objetos provoca movimentos involuntários do corpo, pois tira a função do objeto mas mantém nele uma anatomia própria para o uso que aqui se torna apenas modo de (a)parecer e de criar situações. O corpo reage, se move mesmo que por uma ação interna; movimento involuntário. Algo dirige nossa vontade e cada movimento é a descoberta de nos mesmos e, ainda que seja apenas um impulso, acaba revelando o objeto e o próprio corpo, um no outro.

Pellegrin

Artista Plástico




 

Texto de apresentação da exposição “3d³” na Galeria Sete ao Cubo Pelotas – 2003

 

 

 

Sob a pele

 

 

Um olhar atento sobre as coisa do dia-a-dia deu nestes objetos. Um olhar que toca o mundo com tempo, com cuidado, decifra seus mecanismos e pode devolvê-los na arte.

As formas desenvolvidas por mãos que conhecem o métier, sem abusar desta garantia, orientadas por um olhar que rapta a inteligência das coisas e pode fazer com que se instaure novos olhares sob a aparência das coisas recriadas, indicam o universo de origem, mas antes que qualquer conclusão se efetue a alusão se transforma em ilusão. O que aponta é também o que nega. Desloca.

A anatomia destes objetos inventados convida ao tato. Pode reativar no corpo do observador a memória do uso, ao mesmo tempo que impossibilita a sua função. O uso se justifica apenas pelo valor da ação de usar. Imanta o objeto de um caráter abstrato que o desloca do mundo das coisas retirando a função que sempre o identificou.

Algo não muito claro se torna familiar. Algo reverbera no corpo do observador, quando diante destes objetos. Como um não-lugar, neles, estamos de passagem. O que nos conduz até eles é o que nos leva adiante deles.

 

Uma certa similaridade com objetos velhos conhecidos é a primeira impressão que nos move para a atenção. No segundo momento, é essa mesma similaridade que põe o pensamento em tensão, pois não há função a ser desempenhada.

Diante destes objetos é inevitável o sentimento de traição. O próximo, o habitual tão claro e evidente se desfaz ao fim do primeiro olhar. O que alude e garante uma intimidade que o hábito do uso permite pela proximidade, se nos faz estrangeiro ao negar (o uso, a função) para deixar explícito o corpo do objeto que se mostra, se dá a ver. Como um guarda-roupa que, esvaziado para mudança, revela espaços que perdemos durante o tempo de uso, aqui também as funções dão lugar para a apresentação da constituição do objeto. Podemos então descobrir o estranho imerso no fluxo do movimento diário. Mas esta experiência não é comum, assim como os objetos recriados não se entregam de todo, pois se movem entre a memória do que podem ser e o que são.

Pellegrin

 

 

Texto de apresentação da exposição “3d³” na Galeria Sete ao Cubo Pelotas – 2003