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carlos naconecy > O que está próximo se afasta..

 

O que está próximo se afasta” é hipnótico e paradoxal. Como todo paradoxo, ele enfeitiça o pensamento. De uma perspectiva estritamente lógica, a frase nada significa e parece não fornecer nenhuma informação. Mas essa expressão é capaz de (prescrever e) descrever como tudo acontece, o ritmo da vida, a unidade do mundo inteiro e do humano. O paradoxo não é um problema não resolvido; o paradoxo simplesmente não é um problema.

Próximo e distante, interior e exterior, apesar de poderem diferir, não podem ser separados. Ambos, simultaneamente, constituem uma dualidade explicita que concebe uma unidade implícita. Do ponto de vista do todo ou do absoluto (ou como for chamado o não-determinado, o não-diferenciado) são modos polares de manifestação da mesma realidade. Os contrários são organicamente interdependentes. Nessa ordem orgânica, tudo, você e as coisas, fazem parte do mesmo processo vital. Todo o relógio está presente enquanto o ponteiro se move. Não é a argila, mas o vazio interior do vaso que o torna útil. De fato, ignoramos o vazio e o silêncio do mesmo modo que os peixes ignoram a água. O olho vê aquilo que está diante de si, mas não consegue ver a si mesmo vendo.

Nas ondulações do fenômeno humano, no simples e imediato da vida cotidiana, também nos desafia o paradoxal. A felicidade é alcançada quando não existe a ansiedade pela felicidade. Quem mais corre parece estar mais próximo da sabedoria, mas é o atrasado quem a alcança. É preciso saber sem saber que sabemos, como na ordem “seja espontâneo!” que, para ser respeitada, tem que ser desrespeitada. Por isso as maiores inteligências parecem estúpidas.

No esvaziamento de todos os desejos, na naturalidade e espontaneidade, ocorre a fusão entre o sujeito e a coisa, artista e obra. Objetividade sem subjetividade. A transcendência da imanência da identidade dos opostos só pode ser intuída. Essa percepção intuitiva é a mesma que compreende a terceira dimensão de um objeto pintado num quadro. Essa intuição cabe somente à arte e à mística. Ambas buscam a unidade do paradoxal, jamais sua explicação.

Todas as filosofias da libertação da linguagem também desconfiam da razão dicotômica. A natureza das coisas, afirmam, resiste à violência da lógica. Mas por que usar palavras para dizer algo a respeito disso tudo? Porque tal é a dimensão tipicamente humana. Gatos imóveis nos sofás, têm a percepção viva daquilo que é, sem o acompanhamento de qualquer comentário verbal.

O que está próximo se afasta” – mas as palavras expressam isso erradamente. Esse paradoxo não é um problema a ser resolvido, mas sim uma realidade a ser experimentada.