“O que
está próximo se afasta” é hipnótico
e paradoxal. Como todo paradoxo, ele enfeitiça o pensamento.
De uma perspectiva estritamente lógica, a frase nada significa
e parece não fornecer nenhuma informação. Mas
essa expressão é capaz de (prescrever e) descrever como
tudo acontece, o ritmo da vida, a unidade do mundo inteiro e do humano.
O paradoxo não é um problema não resolvido; o
paradoxo simplesmente não é um problema.
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Próximo
e distante, interior e exterior, apesar de poderem diferir, não
podem ser separados. Ambos, simultaneamente, constituem uma dualidade
explicita que concebe uma unidade implícita. Do ponto de vista
do todo ou do absoluto (ou como for chamado o não-determinado,
o não-diferenciado) são modos polares de manifestação
da mesma realidade. Os contrários são organicamente interdependentes.
Nessa ordem orgânica, tudo, você e as coisas, fazem parte
do mesmo processo vital. Todo o relógio está presente enquanto
o ponteiro se move. Não é a argila, mas o vazio interior
do vaso que o torna útil. De fato, ignoramos o vazio e o silêncio
do mesmo modo que os peixes ignoram a água. O olho vê aquilo
que está diante de si, mas não consegue ver a si
mesmo vendo.
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Nas
ondulações do fenômeno humano, no simples e imediato
da vida cotidiana, também nos desafia o paradoxal. A felicidade é alcançada
quando não existe a ansiedade pela felicidade. Quem mais corre
parece estar mais próximo da sabedoria, mas é o atrasado
quem a alcança. É preciso saber sem saber que sabemos,
como na ordem “seja espontâneo!” que, para ser respeitada,
tem que ser desrespeitada. Por isso as maiores inteligências parecem
estúpidas.
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No
esvaziamento de todos os desejos, na naturalidade e espontaneidade,
ocorre a fusão
entre o sujeito e a coisa, artista e obra. Objetividade sem subjetividade.
A transcendência da imanência da identidade dos opostos só pode
ser intuída. Essa percepção intuitiva é a
mesma que compreende a terceira dimensão de um objeto pintado
num quadro. Essa intuição cabe somente à arte e à mística.
Ambas buscam a unidade do paradoxal, jamais sua explicação.
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Todas
as filosofias da libertação da linguagem também desconfiam
da razão dicotômica. A natureza das coisas, afirmam, resiste à violência
da lógica. Mas por que usar palavras para dizer algo a respeito
disso tudo? Porque tal é a dimensão tipicamente humana.
Gatos imóveis nos sofás, têm a percepção
viva daquilo que é, sem o acompanhamento de qualquer comentário
verbal.
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“O que está próximo se afasta” – mas as palavras
expressam isso erradamente. Esse paradoxo não é um problema
a ser resolvido, mas sim uma realidade a ser experimentada.
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