JARDINS E OUTRAS DELICADEZAS

Fátima Nader, Maio/2010

fatimanader@yahoo.com.br

Minha investigação artística vem, nos últimos anos, concentrar como fonte de pesquisa, relações que evocam os jardins, como memória da paisagem, espaço simbólico de compartilhamento com o outro e a natureza-morta (prótese artificial, gambiarra estética como um trompe-l’oeil industrial), misturando fronteiras entre espaços privado e público, apresentados e representados por meio das estratégias pintura, fotografia, desenho e instalação.
Enquanto a paisagem está além do alcance da visão,'o jardim, retraído, se separa e foge da cidade. Segundo Cauquelin (2007), em A Invenção da Paisagem, “o jardim oferece, com efeito, esse paradoxo amável de ser um fora dentro”, viabilizando o lazer e a liberdade, “a dobra fora do mundo”, em seu próprio esquema simbólico.
Além de sua disseminação na cidade,'encontro referências na história da arte: em naturezas-mortas com a representação de frutas sob céu aberto de Albert Eckout; em pinturas de Cézanne (o plano pictórico é composto também pelos espaços vazios da tela como suporte); em pranchas botânicas e em gravuras dos livros de emblemas do século XVII, que uniam no mesmo espaço, céu e terra, palavra e imagem.

O jardim como memória extrapola delimitações e perímetros,'não se restringindo a fronteiras organizadas em propriedades e vias urbanas, mas está presente nos interiores domésticos, em composições de elementos naturais ou artificiais, arranjos, vasos, mobiliários, fontes, caminhos, vãos de edificações e frestas, conectando interiores e exteriores entre si. Em comum, esses espaços se oferecem como objetos de afeição, em um “compartilhamento” coletivo, de modo voluntário ou pelo acaso.
Se o termo “natureza” (do latim natura,'naturam,'naturea ou naturae)'é utilizado para todo ambiente material natural existente sem intervenção humana, cumpre pensar se esse conceito ainda é possível.
Do mesmo modo, a reflexão sobre a condição desses elementos naturais e culturais,
'enxertados e transplantados para outros meios e linguagens, por meio de procedimentos como observação, colheita e registro, ressignificam e repensam a natureza dos meios utilizados durante o processo de criação e produção.
De acordo com Patrick Vauday (2002),'em La peinture et l’image: y a-t-il une peinture sans image?,
'a imagem pictural se dá em um percurso dinâmico entre imagem e matéria. Não sendo, necessariamente figurativa ou representativa, a pintura não é uma vista, mas uma visão que forma seu objeto. Para o autor, a pintura é “um olhar habitado que faz nascer ou renascer o visível”, se abrindo e impondo um mundo próprio, enquanto a fotografia põe em jogo a continuidade, capturando fragmentos como um traço do passado o qual podemos, posteriormente, reconhecer e ser reenviados.
Em meu trabalho,
'a fotografia digital colhe imagens de paisagens e naturezas-mortas que remetem sempre'a ideia do jardim como compartilhamento simbólico e efêmero - podendo ainda ser capturado por uma lupa comum – que projeta a visão do mundo que se transforma, rapidamente, com a luz e suas variações.
As imagens fotográficas,
'intervalos de paralisia e captura, recebem um tratamento por ferramentas de edição,'com o auxílio do Photoshop ou Photoimpression para tratamento e/ou inserção de texto sobre a imagem, em tratamento semelhante a meu processo pictórico.
A promoção de um diálogo com o espaço geográfico e cultural tem como estratégias pictóricas formais,'
a composição fragmentada e não-linear, a falta de cobertura de partes da tela, deixando entrever o suporte pictórico e a inserção da palavra, que atravessa a aparência da imagem e constitui sua dúvida, em um jogo de ausência e presença, a fim de agregar outros sentidos a imagem.

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