O jardim como memória extrapola delimitações e perímetros,'não se restringindo a fronteiras organizadas em propriedades e vias urbanas, mas está presente nos interiores domésticos, em composições de elementos naturais ou artificiais, arranjos, vasos, mobiliários, fontes, caminhos, vãos de edificações e frestas, conectando interiores e exteriores entre si. Em comum, esses espaços se oferecem como objetos de afeição, em um “compartilhamento” coletivo, de modo voluntário ou pelo acaso.
Se o termo “natureza” (do latim natura,'naturam,'naturea ou naturae)'é utilizado para todo ambiente material natural existente sem intervenção humana, cumpre pensar se esse conceito ainda é possível.
Do mesmo modo, a reflexão sobre a condição desses elementos naturais e culturais,'enxertados e transplantados para outros meios e linguagens, por meio de procedimentos como observação, colheita e registro, ressignificam e repensam a natureza dos meios utilizados durante o processo de criação e produção.
De acordo com Patrick Vauday (2002),'em La peinture et l’image: y a-t-il une peinture sans image?,'a imagem pictural se dá em um percurso dinâmico entre imagem e matéria. Não sendo, necessariamente figurativa ou representativa, a pintura não é uma vista, mas uma visão que forma seu objeto. Para o autor, a pintura é “um olhar habitado que faz nascer ou renascer o visível”, se abrindo e impondo um mundo próprio, enquanto a fotografia põe em jogo a continuidade, capturando fragmentos como um traço do passado o qual podemos, posteriormente, reconhecer e ser reenviados.
Em meu trabalho,'a fotografia digital colhe imagens de paisagens e naturezas-mortas que remetem sempre'a ideia do jardim como compartilhamento simbólico e efêmero - podendo ainda ser capturado por uma lupa comum – que projeta a visão do mundo que se transforma, rapidamente, com a luz e suas variações.
As imagens fotográficas,'intervalos de paralisia e captura, recebem um tratamento por ferramentas de edição,'com o auxílio do Photoshop ou Photoimpression para tratamento e/ou inserção de texto sobre a imagem, em tratamento semelhante a meu processo pictórico.
A promoção de um diálogo com o espaço geográfico e cultural tem como estratégias pictóricas formais,'a composição fragmentada e não-linear, a falta de cobertura de partes da tela, deixando entrever o suporte pictórico e a inserção da palavra, que atravessa a aparência da imagem e constitui sua dúvida, em um jogo de ausência e presença, a fim de agregar outros sentidos a imagem.
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