PER FOR +

Evento coletivo que explorou a performance nas artes plásticas e algumas possibilidades de suas extensões. Além de uma apresentação ao vivo que fundamentou a base da arte da performance, o projeto incluiu transformações, desdobramentos de performance encontrados em diferentes suportes como: fotografias, vídeos, instruções e situações participativas. Pretendeu-se duplicar o efeito da transformação, através da inclusão de projetos que, em seus temas, destacam processos de transformações.

Os artistas participantes usaram tais processos sugerindo que a transformação não indica, necessariamente, uma solução ou uma finalização da ação, mas uma possibilidade de emergir novos estados de complexidade.

Ao subir a rampa externa que leva ao espaço do Contemporão, um som de quebra de vidro pode surpreender o passante. É uma provocação instalada por Teresa Siewerdt ativada através de um sensor colocado em um lugar recôndito; uma provocação que  se instaura a partir da passagem do visitante. Qual é a barreira invisível deixada para trás? Uma delas talvez seja a condição de ser um espectador passivo.  Ao entrar, ele prontamente, se torna agente modificador de uma situação. Essa obra permite que os visitantes despertem para configurações não visíveis presentes nos espaços expositivos. A passagem e a própria presença do visitante tornam-se perfomance.

Uma etiqueta na entrada do espaço sinaliza;

Edmilson Vasconcelos : Imersão no Contemporão (em amarelo)
Onde está o trabalho de Edmilson ? Onde está sua performance ? Edmilson está ali, conversando com todos, olhando as obras instaladas,  integrado ao público presente no evento. Ele opera uma performance discreta; a única coisa que o diferencia dos outros são seus óculos largos de lente amarela. Qual é então sua performance? É uma performance que acontece para si mesmo? Sob as lentes amarelas, sua percepção do evento é alterada causando uma nova relação com o espaço; ele vê tudo que todos vêem, mas de forma diferente. Parece que esta operação destaca a premissa de que a obra sempre acontece a partir do encontro com o espectador. As perspectivas diferenciadas que cada visitante trás, são normalmente ocultas, mas essa ganha um discreto destaque através desta ação.  Com Edmilson circulando no evento e observando, a pergunta que emerge é quem é o performer?

Reut Frester apresenta um vídeo-perfomance que mostra uma modelo que transforma uma mulher através da aplicação de tinta preta sobre um corpo vestido de branco, a frente de um fundo negro.
A aplicação da tinta “emagrece” o corpo da mulher causando nela uma reação performática; um movimento irônico que parece destacar a artificialidade dos padrões sociais sobre o corpo. Aqui o processo de “abstração” do corpo feminino não anula o sujeito, mas o movimente para explorar sua nova condição.

Aline Dias fotografa uma forma de “mulher efervescente” esculpida em uma pílula de aspirina borbulhando sobre um fundo vermelho. O registro sugere um processo sobre a figura feminina. A diminuta mulher se dilui na sua própria condição de efervescência. A ação iatrogênica do ácido acetilsalicílico ressalta a ambigüidade da condição feminina.

Adriana Barreto expande sua performance a partir de sua casa. Vestida de roupa preta, ela carrega uma enorme mala e trafega pelos terminais de Florianópolis, desafiando catracas de ônibus e passantes urbanos, atravessa ruas escuras e sobe ladeiras silenciosamente. Quando finalmente chega ao evento, ela desaparece dentro da mala. Depois de pouco tempo a mala começa a tremer, criando uma sensação de desconforto e preocupação na platéia.
Após meia hora, Adriana surge como a mulher efervescente de Aline,  suada e exaurida, mas ambiguamente bela, maquiada e vestida com roupa de festa;  agora ela se integra no evento. Sua mudança dentro da maleta sugere que os menores espaços também permitem transformações inusitadas.

Vitor Cesar com seu cartaz e suas etiquetas nos quais se lê “Permitido” expande o evento para outros contextos urbanos da cidade de Florianópolis. Nesse território onde, para Koga, se realizam “manifestações ativas de vida”, o artista proporciona uma transformação de barreiras urbanas e permite novas situações permissividade  que sugerem a possibilidade de destacar quem toma atitude.
No momento em que o usuário se destaca do tecido social, torna-se performer.

Alex Cabral, através de uma instrução irônica, pede as pessoas para re-valorar espaços que deveriam ser públicos. É um trabalho que sinaliza como os espaços públicos são apropriados pelos discursos dos políticos através de suas placas comemorativas de inauguração. Ao ironizar tal condição, re-oferecendo o uso de espaços públicos, a ação que coloca o artista como proponente torna evidente a apropriação de tais espaços para interesses particulares.

Emilio Morandi dentro da ordem do performativo oferece seu cérebro ao visitante. My brain is for you. As etiquetas oferecidas no evento permitem que o público expanda seu uso. Ao veicular a frase, o visitante adota a oferta como própria. Essa condição possibilita uma troca mútua, que remete a idéia de Goffman sobre uma qualidade básica da performance que tem a ver com jogos de influência.

 

A “mala” na arte

Foi uma dupla surpresa a performance de Adriana Barreto. A primeira foi vê-la entrar na mala-cabine no chão do espaço Contemporão e, por uns 15 minutos mais ou menos lá dentro, vê-la sair com outra roupa e maquiagem. Certamente um exaustivo exercício de contorcionismo em condições precárias de espaço e oxigênio. Fiquei pensando (e sofrendo) durante sua permanência lá dentro nas dificuldades e angústias passadas por ela no interior daquela mala. Para mim que observava talvez a angústia fora muito maior, pois tenho horror a lugares apertados. Adriana saiu exausta lá de dentro!

Passadas as angústias ao vê-la sair com a ajuda de uma pessoa que auxiliara na abertura da mala, questionei se a palavra emergência estava bem empregada diante das ações que presenciei. Em qual sentido esta palavra se comportava melhor? Emergência como uma qualidade nova, complexa, híbrida e imprevisível gerada a partir de outras qualidades combinadas ou emergência no sentido de urgência de ações rápidas a serem tomadas por conta de acontecimentos imprevisíveis? De qualquer maneira, como se preparar para situações imprevisíveis? Será que dentro da mala além da roupa para festas, maquiagem e jóias também existiam materiais de primeiros socorros, lanterna, uma arma, uma bússola, comida e água? Provavelmente sim. Mas certamente o “de” que precede a palavra emergência no título nos indica tratar-se da segunda hipótese e me levou a pensar para qual acontecimento surpresa (para situações de trânsito) Adriana se previnira tanto, visto estar preparada e programada para tal performance.

Bem, estas dúvidas continuaram sem respostas para mim até a segunda surpresa, uma semana depois, quando vi as imagens da performance publicadas neste web site.

Constatei então que conheci, lá no Contemporão, apenas parte da estória, ou melhor, parte da performance. Desconhecia completamente que ela partira com sua mala-cabine desde um bairro distante ao Contemporão e que transitara (acredito que por duas horas e meia) a pé e de ônibus por um longo e cansativo percurso até chegar ao espaço do evento. Esta novidade foi conhecida por mim e talvez para todos que lá estiveram, uma semana após a inauguração do Contemporão. Este novo fato me fez novamente pensar sobre a performance que, de certa forma, lamentei não ter sido informado desta parte oculta no ato que parecia ser só aquele que presenciei no evento e que tentei significar ao meu modo. Mas será que a ocultação desta informação fora programada sendo um dado da performance? Aliás, uma informação muito importante para não estar disponível!

Quem conhece Florianópolis sabe da extrema dificuldade de locomoção entre bairros e da falta de qualidade e alto valor (R$ 2,70) do transporte público local, principalmente entre bairros tão distantes entre si, como neste caso. Isso sem falar nas grandes subidas e descidas entre esses dois pontos e que tornam quase impraticáveis certos deslocamentos a pé, como por exemplo, a subida-descida íngreme da rua onde se situa o Contemporão. Sorte de quem tem sua locomoção própria ou de quem ganha uma carona, como eu, neste caso.

Este novo dado me levou a repensar o que estava tentando significar, apesar do conceito de emergência continuar na sua segunda hipótese e o trânsito agora, passava a ter um caráter mais objetivo e claro. No entanto, esse deslocamento sofrível para chegar ao evento passou a ter outra conotação e para mim, muito mais importante do que o ato de entrar e sair da mala transformada em cabine justamente lá no Contemporão, uma casa de amigos. Este último ato pareceu-me como uma justificativa espetacular para a exposição e para o grande e desagradável percurso, modificando completamente o rumo dos significados que ainda não estavam elaborados, mas que agora tomavam forma e sentido.

A ação sofrida de ir ao evento com seus próprios recursos e meios salientaram-se como crítica ao próprio estado institucional da arte em seus (des)recursos e que, na maioria das vezes, aproveita-se da boa vontade e generosidade dos artistas para expor suas obras a qualquer custo. Neste caso, ir ao evento tornou-se um ato de vontade, persistência, investimento e coragem da artista, a qualquer preço. A “mala” aqui, em seu sentido pejorativo, é a própria situação institucional da arte que se repete e que raramente oferece aos artistas, condições salutares para o desenvolvimento de seus trabalhos aproveitando-se de suas lutas por um lugar ao sol com ou sem filtro solar...

Adriana, mais uma vez, generosamente me fez pensar sobre a continuidade desta realidade em nosso meio cultural.

E. Vasconcelos >>>> POSTADO EM 14ABRIL2009

 

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